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Love In The Pacific  PERÍODO NORTE-AMERICANO
Lançado comercialmente nos Estados Unidos em dezembro de 1968, dirigido por Zygmunt Sulistrowski

SOBRE O FILME

O filme se passa em diversas localidades banhadas pelas águas do Oceano Pacífico, especialmente na parte oriental como Austrália, Papua Nova Guiné, Polinésia, Filipinas, Taiwan, Japão, China, etc. A produção, que cruza as fronteiras entre os universos documentais e ficcionais, retrata diferentes formas de amor encontradas nas tribos e cidades visitadas. Levando ao público uma série de rituais e tradições de religiões e povos isolados, mas mostrando a contemporaneidade do sentimento através do tempo. Como grande parte dos filmes de Sulistrowski, a temática sexual está presente, especialmente em cenas de sexo e nudez.

CRÉDITOS REDUZIDOS

Produção: Zygmunt Sulistrowski
Roteiro: Zygmunt Sulistrowski
Direção: Zygmunt Sulistrowski

Música: Moacir Santos e Zygmunt Sulistrowski
Regência: Moacir Santos


DESCRIÇÃO E ANÁLISE DA TRILHA

"É diferente, a música [do filme] é jazz. Eu tenho a satisfação de mostrar" [Moacir Santos, em depoimento presente no livro de Andrea Ernest Dias, demonstrando apreço pelo seu trabalho em Love in the Pacific].

Quando o diretor Zygmunt Sulistrowski veio ao Brasil, em 1965, procurar profissionais para trabalhar na trilha de seu mais recente filme, o nome de Moacir foi prontamente indicado pela comunidade musical. Esse trabalho, composto e arranjado para um grupo de grande porte, teve uma boa repercussão entre seus pares e isso proporcionou a Moacir uma passagem para os Estados Unidos paga pelo Itamaraty para assistir à pré-estreia do filme. Essa foi uma ocasião um tanto quanto conturbada pois Santos não recebeu nenhuma notificação de Sulistrowski sobre esse evento pelos anos seguintes. Em 1967, a passagem ainda era válida e Santos então pode embarcar para sua primeira experiência na América do Norte e que acabaria o levando a fixar residência por lá, primeiramente em Newark [New Jersey], mudando-se após pouco tempo para a Califórnia.

Infelizmente nenhuma cópia desse filme foi encontrada até o presente momento e, em depoimento pessoal, o diretor afirmou que os rolos originais de grande parte de seus filmes foram perdidos durante um terremoto em Los Angeles, tornando a busca por uma cópia ainda mais complexa. Por esse motivo não foi possível analisar a música de Moacir para o filme enquanto trilha, ou seja, dialogando com as imagens e parte integrante do projeto audiovisual. Contudo, foi possível ter acesso a um LP lançado em 1969, em uma edição italiana, o que possibilitou conhecer os temas, assim como a instrumentação e como se deram outros aspectos da trilha musical de Moacir Santos para Love in the Pacific.

O encarte original, reproduzido abaixo, apresenta o nome de Moacir grafado de maneira errada [Moarin Santos] e o credita como compositor e regente da orquestra.

Segue abaixo a lista das músicas com seus respectivos nomes e durações, e uma breve análise preliminar de cada uma delas:

 

LADO A

"When you find the love you dream of" [2:27]

A faixa valoriza o uso das cordas arcadas e madeiras e se utiliza de uma numerosa instrumentação orquestral para acompanhar a voz feminina de Dell-Fin Poaha Thursday, cantora havaiana que foi Miss Hawai'i em 1950, além de ter atuado em alguns filmes e séries de TV. A composição apresenta três seções formais, além de introdução e coda e o uso da orquestração é sempre muito criativo. Os backgrounds de sopros e cordas estão sempre se renovando, alternando entre funções puramente harmônicas e contrapontísticas. Também é digno de nota a construção de um padrão rítmico de acompanhamento fragmentado utilizando toda a formação instrumental, na seção B da composição.

 

"But what is love" [2:55]

Composta de duas seções formais principais, a composição se utiliza de uma grande formação instrumental. Inicialmente pode-se ouvir uma massa sonora de cordas, sopros e percussão, com uma sonoridade épica. Em seguida, cordas em pizzicato, piccolo, oboé e harpa executam, em oitavas, uma melodia pentatônica que remete à música oriental. O tema inicial retorna nas cordas acompanhado pelo piano e, na sequência, é ampliado em peso orquestral por uma soma de cordas, sopros e contracantos nas trompas. Uma narração é sobreposta à gravação da música em alguns trechos.

 

"Spell of Bora Bora" [1:17]

Essa composição apresenta quatro diferentes seções, em um tratamento orquestral bastante diverso. Primeiramente os sopros iniciam com um trecho épico e incisivo, seguido por uma melodia nas cordas que serve de transição para uma segunda parte mais delicada, tocada por flauta, guitarra e harpa. Por fim, uma melodia no fagote é acompanhada pelas cordas arcadas em trêmolo em um trecho carregado de dramaticidade.

 

"Love in Manila" [1:09]

É uma composição muito interessante, que remete à gêneros musicais italianos, em três por quatro. A introdução é executada por um efeito no bandolim e uma melodia em modo menor no corne inglês. A seção A é apresentada pela soma de cordas, sopros e bandolim em trêmolo acompanhados de percussão. Já a seção B tem uma melodia nos metais acompanhada pelas cordas em pizzicato, sopros e percussão. Na sequência, a seção C mistura todos os elementos anteriores em um perfil melódico ascendente e conclusivo.

 

"The bird of the sea" [1:04]

Uma composição que valoriza a seção de cordas de modo econômico e eficiente. Uma breve linha melódica ascendente serve de introdução para a parte A, que é dividida em dois: primeiro a melodia é tocada nos sopros e na sequência migra para as cordas. A seção B também é separada em duas subseções: a primeira é executada por um solo de oboé acompanhado por cordas em pizzicato e a segunda termina a composição com um tutti orquestral.

 

"Saima the sea gipsy" [2:16]

Umas das composições mais interessantes da trilha, ela é trabalhada apenas com solos, uníssonos ou oitavas. O perfil melódico é sombrio, sinuoso e carregado de suspense. O excerto musical se inicia com um solo de clarone e segue nas cordas, chegando a uma abertura de três oitavas. Ao final, o clarone retorna para dobrar a última frase melódica e finalizar a composição com uma maior densidade instrumental.

 

"The Craker lake" [1:24]

Trecho lento e melancólico, vai crescendo em densidade e dinâmica. A melodia da parte A é tocada por trombone e violoncelo, acompanhado por piano. Já a seção B é liderada por um solo de saxofone alto acompanhado por piano, cordas e glockenspiel. Na sequência, as cordas assumem o plano principal, com contracantos e acompanhamento de sopros, piano, glockenspiel e percussão. A coda da composição permeia os mesmos temas já tocados porém, em uma instrumentação novamente reduzida e delicada, de flauta, glockenspiel e harpa.

 

"Night without future" [1:22]

É interessante que apesar do nome essa composição apresenta exatamente o mesmo tema de "When you find the love you dream of" mas com um arranjo diferente, utilizando apenas uma orquestra de cordas, o que o torna mais sombrio e intimista. A melodia da seção A é executada por um violino solo na região aguda e o acompanhamento se dá por uma trama semi-contrapontística. A repetição da melodia ocorre de maneira similar, ela é dobrada em oitavas por outros instrumentos da seção de cordas, aumentando o peso do arranjo. Já a parte B retoma a sonoridade do violino solo e o acompanhamento é dado por um padrão rítmico em sequência.

 

"Kiss in swin" [1:13]

Apresenta uma instrumentação grande de big band associada a uma seção de cordas e vibrafone solista, resultando em uma sonoridade bastante leve e cinemática. A introdução é composta por uma frase de flauta somada a um trompete com surdina, acompanhados por um vibrafone pontuando a harmonia. As duas primeiras exposições da parte A são formadas por uma melodia dobrada de vibrafone e piano, sob a condução de contrabaixo e bateria, já a seção B e a reexposição da A adquirem uma instrumentação mais densa: flauta e trompete com surdina executam a melodia, com um background harmônico nas cordas e acompanhamento da seção rítmica.

 

"Call of love" [2:12]

Toda a composição se baseia na apresentação das melodias por apenas dois instrumentos: fagote e flauta, respectivamente. Primeiro cada um executa um trecho individualmente, seguido de uma seção em oitavas e, por fim, um contraponto a duas vozes desenvolvendo o material temático inicial. A construção das melodias se dá por um modo menor em andamento lento em toda a primeira parte da música, depois, ao se iniciar a seção contrapontística, o andamento se acelera proporcionando mais leveza ao trecho.

 

"We'll meet in Tokyo" [1:01]

Essa faixa também é composta a partir de uma escala pentatônica, remetendo à uma sonoridade oriental. A instrumentação é fixa durante todas as seções formais: a melodia é sempre dobrada por violinos com arco, sobrepostos a violas e violoncelos em pizzicato e, adicionalmente, alguns momentos são sobrados por um xilofone. O acompanhamento se dá por um vibrafone tocando as harmonizações com o motor ligado e percussão tradicional. A forma apresenta a estrutura AAB, sendo que a seção B cita literalmente parte da melodia de "When you find the love you dream of", que vai se estabelecendo como tema principal da trilha.

 

LADO B

"Why not!" [1:59]

A composição, de estrutura simples e cíclica, se baseia em uma sonoridade afro-cubana de uma seção rítmica formada por percussão e guitarra que acompanha as melodias responsórias de saxofone tenor e trompete.  Todo o trecho serve de base para o diálogo de um casal, que sugere uma temática sexual.

 

"African love" [2:55]

Faixa de caráter ritualístico, fazendo referência explicitamente ao universo da música tribal, muito presente em diversas ilhas do Pacífico. É constituído basicamente de uma voz masculina principal que lidera o responsório e respostas em um coro misto de estrutura não organizada, no sentido de que as frases não são cantadas homofonicamente. A condução rítmica é feita por uma base percussiva de tambores executando padrões rítmicos complementares.

 

"When you find the love you dream of" [2:46]

A versão do lado B de "When you find the love you dream of" é instrumental e se aproxima de arranjos jazzísticos dos anos 1950 e 1960, com uma instrumentação de big band tradicional. A primeira exposição do tema é executada pelos sopros em oitavas com piano harmonizando com frases rítmicas, já na reexposição a primeira parte da melodia é tocada por uma guitarra, executando a melodia blocada e a segunda parte um trompete assume o plano principal, sob um background de saxofones. Além disso, dois improvisadores podem ser ouvidos tocando sobre a forma da música, um piano e um saxofone alto. A coda é formada por um cliché dos arranjos de jazz, quando um instrumento executa uma frase sozinho, no caso, o contrabaixo, seguido por um acorde amplo e dissonante.

 

"Dance of love" [2:11]

É uma composição simples, em modo maior, com linhas de metais e saxofones que se revezam entre o plano principal da melodia e o secundário das harmonizações. A condução rítmica é estruturada por percussão, contrabaixo e guitarra, que, por sua vez, concebem forte influência latina ao arranjo, por meio dos padrões rítmicos executados.

 

"Dreams of Tahiti" [2:15]

Assim como a faixa anterior, também pode-se perceber uma marcante influência latina, especialmente de ritmos da América Central. A composição repete uma estrutura harmônico-melódica fixa em diversas variações. Primeiramente, os saxofones apresentam o tema com respostas nos trompetes. Na sequência, um trombone solo executa a melodia com um background de cordas, seguido por um tutti orquestral. Na terceira exposição é a vez de um piano solista tocar o tema principal de maneira improvisada, sendo a quarta exposição idêntica à segunda. Na quinta apresentação do tema a harmonia modula para uma região mais brilhante e a melodia é tocada pelo naipe de cordas, com contracantos e respostas nos sopros. Por fim, sonoridade da terceira e quinta exposições são retomadas na sexta repetição da forma, mas agora na nova tonalidade.

 

"Bubu" [2:23]

É outra composição estritamente jazzística, utilizando uma estética bastante tradicional de escrita para big bands, sendo que a seção de cordas é usada de maneira sutil e delicada. O compositor priorizou os instrumentos de sopro para os voicings das melodias e principais contracantos. Contudo, nos improvisos, os instrumentos da seção rítmica ganham mais destaque, com solos de saxofone alto, guitarra e piano.

 

"The Tokyo dolls" [2:37]

A faixa também se baseia em uma sonoridade jazzística, dividida em duas seções formais semelhantes. A introdução apresenta uma frase de piano em quartas, conduzindo para a parte A, composta por uma linha de trompete e guitarra em oitavas. Na segunda exposição, um saxofone permeia a melodia principal contrapontisticamente. Já na seção B, o mesmo material é desenvolvido em outra região tonal e um trompete com surdina se soma à melodia em oitavas de saxofone e guitarra. Por todo o resto da composição esses três instrumentos são responsáveis por executar as melodias, tanto em conjunto quanto individualmente.

 

"The kangaroo shake" [2:24]

Essa é a única composição de todo o disco que flerta com o rock n' roll, especialmente a chamada surf music dos anos 1960. Composta na tradicional forma AABA, uma pungente seção rítmica de guitarra, contrabaixo e bateria serve de base para um saxofone tenor de som brilhante e rasgado, sendo que tanto o saxofone quanto a guitarra também atuam como improvisadores.

Por fim, considerando o material que foi possível ser encontrado, pode-se perceber a importância desse projeto para a carreira de Moacir. Pois além do compositor ter tido a oportunidade de trabalhar em uma produção internacional de grande porte, tendo em vista a dimensão das instrumentações utilizadas na trilha, ele ainda pôde usar essa experiência como um passaporte inicial para sua entrada no mercado norte-americano.

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