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Seara Vermelha   PERÍODO BRASILEIRO
Lançado comercialmente no Brasil em agosto de 1963, dirigido por Alberto D'Aversa

SOBRE O FILME

Adaptação da primeira parte do livro de 1946 do escritor baiano Jorge Amado, realizada pelo diretor italiano de teatro Alberto D'Aversa, com acompanhamento do próprio Amado. De tons comunistas, filmado principalmente no sertão da Bahia e Pernambuco, a obra é uma espécie de road movie sertanejo, que acompanha a longa jornada rumo a São Paulo de uma família que se vê obrigada a abandonar as terras em que vive e trabalha para tentar o sonho de uma vida melhor no Sul. Pouco a pouco, as inevitáveis tragédias desagregadoras vão se abatendo sobre o grupo – fome, sede, cansaço, loucura, mortes, doenças, brigas. Um dos eixos principais da história é a saga do jovem casal Marta e Vicente e sua separação. Marta, vítima inocente de manipulação e moralismo, protagoniza a marcante cena final em que quebra a quarta parede, quando olha diretamente para a câmera e cospe no espectador, cúmplice de suas injustiças sofridas.

CRÉDITOS REDUZIDOS

Produção: Proa Filmes
Roteiro: Alberto D'Aversa
Direção: Alberto D'Aversa

Música: Moacir Santos
Técnicos de som: Carlos Foscolo e Waldir Bonas
Composição "Lamento de Vicente" de João Gilberto com letra de Jorge Amado


MÚSICAS IDENTIFICADAS NA TRILHA

"Jequié" - lançada no disco Carnival of Spirits [1975]

"Lamento de Vicente" [música de João Gilberto e letra de Jorge Amado – João Gilberto gravou essa música sem a letra como "Undiú" em 1973]


DESCRIÇÃO E ANÁLISE DA TRILHA

A trilha de Seara Vermelha é tida como o primeiro trabalho de Moacir para cinema, realizado por indicação de João Gilberto, a quem é atribuída a autoria de uma composição presente no filme. A música é plural, confluindo diversas linhas diferentes. A sonoridade orquestral é de fato a que mais se afirma como carro chefe, revelando o grande porte da produção, especialmente se comparado aos padrões da época.

Dentre as inserções musicais diegéticas [presentes dentro da ação filmada], estão três aparições de um Grupo de Pifes [ou Banda de Cabaçais], quando os instrumentistas são filmados e fazem parte da narrativa. É interessante comentar que a instrumentação vista na tela apresenta uma pequena variação da que é ouvida efetivamente. Pois além da formação tradicional de dois pifes [ou pífanos] e percussão, um cavaquinista que acompanha o grupo não está presente na faixa sonora.

Ao longo do filme existem três diferentes tipos de baiões tradicionais, executados pela clássica formação de sanfona e percussão [zabumba, triângulo, etc]. Em geral, as inserções são apresentadas como se fossem tocadas na festa, ao vivo ou em um rádio. Vale comentar também que um dos três tipos de baião veio a se tornar a música "Jequié", gravada e lançada no disco Carnival of Spirits, de 1975.

Além disso, a trilha apresenta algumas inserções de cantorias diegéticas, todas elas diretamente ligadas à religiosidade. Elas ocorrem especialmente em procissões e no funeral de uma personagem.

A última inserção musical diegética é o tango presente na cena de um bar. Neste plano sequência, Filó, a ex-amante do médico, leva Marta a uma boate que aparenta servir como ponto de prostituição na cidade. A articulação narrativa sugere que Marta, agora desamparada pela família, seguirá sua vida como prostituta. A música ajuda a sugerir tais constatações pelo caráter boêmio impregnado à composição. Também é interessante pensar na referência, única em todo o filme, à música não brasileira, como retrato entre modernização e corrompimento da vida sertaneja. A instrumentação da composição é enxuta, como um grupo que possivelmente tocaria ao vivo na cena, apesar de não ser visto de fato. As melodias se intercalam entre um violino e um bandoneón, instrumento tipicamente portenho, sendo que um piano permeia a harmonia de maneira tímida.

Uma das inserções musicais mais marcantes de toda a trilha é uma canção que chamamos de "Tema da Marta". Os créditos iniciais e a escassa bibliografia sugerem que ela seja a composição "Lamento de Vicente", de João Gilberto com letra do próprio Jorge Amado, autor do livro no qual o filme se baseia. Após diversas audições comparativas, acredita-se que o intérprete que gravou a música na trilha seja José Tobias [1928-], importante cantor da "era de ouro" das rádios. A canção em questão é apresentada por voz e violão e tem a peculiar função de "voz do narrador". Em um primeiro momento a música aparece exatamente quando Vicente pede a mão de Marta em casamento a seus pais, e é muito interessante que a música é usada para contradizer o que se vê no plano imagético-narrativo, pois a canção funciona como um aviso ao espectador de que algo está errado. Sua última aparição ocorre durante os créditos finais, logo após Marta ser deixada para trás por sua família para ser prostituta em Juazeiro. Dessa vez, a canção passa do total antagonismo da primeira inserção para a paralelização fiel da ação. Ou seja, a música previu e concretizou o rumo da personagem.

Além disso, Moacir também fez para essa trilha alguns de seus mais inspirados trabalhos composicionais de música extra-diegética para cinema: diversos trechos de instrumentos solo, combinações de sopros e também de grande orquestra, mostrando todo o fôlego de seu pouco conhecido potencial escrevendo para cordas arcadas.

Por fim, fica claro ao longo da análise que muitas das inserções dialogam com ritmos e gêneros tradicionais do nordeste brasileiro, com grande destaque para o baião, tanto explicitamente como de maneira mais sutil. As composições modais predominam, particularmente as estruturadas nos modos mixolídio e mixolídio com quarta aumentada, mas também é possível encontrar melodias nos modos dórico e lídio com certa frequência.

Assim como em outros de seus trabalhos para cinema, Moacir Santos utilizou em sua trilha uma linguagem composicional bastante afinada com a temática da narrativa, pesquisando a fundo suas raízes culturais sem deixar de estar sintonizado com as principais técnicas de composição para cinema vigentes.

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